Relação entre interações sociais e mudanças gramaticais

08/05/2012 at 1:07 PM Deixe um comentário

Por Karina Toledo

Agência FAPESP – Poderia um indivíduo adulto mudar sua gramática ao longo da vida? Para responder a essa pergunta, a professora Maria Célia Lima-Hernandes, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (USP), deu início à pesquisa que resultou no livroIndivíduo, Sociedade e Língua – Cara, tipo assim, fala sério!.

Recém-lançada pela Edusp, com auxílio da FAPESP, a obra é uma versão revista da tese de doutorado defendida por Lima-Hernandes em 2005, no Instituto de Estudos de Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A autora investiga se um mesmo grupo de pessoas poderia ter sua gramática alterada em um espaço de 20 anos. Quatro palavras de base comparativa – “como”, “igual”, “feito” e “tipo” – foram escolhidas para testar a hipótese de que contatos sociais mais extensos desencadeariam mudanças na gramática da língua falada por adultos independentemente da idade, do sexo ou do grau de escolaridade.

“A teoria até então predominante na sociolinguística era a de que as mudanças na gramática seriam resultado da rebeldia adolescente. Os jovens, por acharem os pais caretas, procurariam usos inovadores para as palavras. Isso foi recentemente questionado por William Labov, professor da Universidade da Pensilvânia e precursor da Sociolinguística Quantitativa”, disse Lima-Hernandes.

Já para a corrente teórica liderada pelo linguista e filósofo Noam Chomsky, é a criança a força transformadora da língua. “A criança interpretaria as construções de um modo diferente produzindo uma nova gramática”, explicou Lima-Hernandes.

Mas, nas pesquisas que realizou antes mesmo de dar início ao doutorado, a autora encontrou evidências de mudanças linguísticas na idade adulta em várias línguas do mundo.

A confirmação veio quando comparou entrevistas de um grupo de 36 moradores do subúrbio do Rio de Janeiro que, 20 anos antes, haviam sido objeto de estudo do grupo de sua orientadora, Maria Luiza Braga, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Lima-Hernandes observou inicialmente que usos inovadores da palavra “tipo” podiam ter sua incorporação na fala relacionada ao tipo de vida social que os falantes desenvolviam.

“Algumas pessoas simplesmente haviam parado de usar a palavra “tipo” ou só a usavam em suas categorias e funções normatizadas. Essas eram as que mantinham um círculo social restrito. Já as que tinham contato com pessoas de diferentes idades e participavam de nichos sociais variados usavam todos os tipos de “tipo”, ou seja, acompanharam a evolução da língua mesmo na idade adulta”, disse.

Por meio da análise de documentos históricos que datam do século 13 ao século 20, Lima-Hernandes resgatou também a trajetória de evolução das palavras “como”, “igual”, “feito” e “tipo”, mostrando os diferentes usos que surgiram com o passar dos anos.

“É possível perceber que a mudança no uso das palavras não vai em qualquer direção, não é aberta à criatividade aleatória como se pensa, mas respeita princípios cognitivos. O novo uso tem de estar ligado, de alguma forma, ao seu traço etimológico resiliente, ainda que os falantes não tenham a mínima consciência disso”, disse.

Contrariando teorias da sociolinguística, estudo sugere que adultos integrados em diferentes nichos sociais acompanham evolução da língua

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