Rap nerd

03/07/2011 at 12:15 AM Deixe um comentário

Darwin é homenageado em rap; assista ao vídeo

Folha

Não vá para a cama com pessoas mesquinhas. Esse é o hino. Por favor, pense em suas netas e netos. Não vá para a cama com pessoas mesquinhas, atraentes ou bonitas.”

Imagine isso com uma batida hip-hop, acompanhada por rosnados e caras de mau, desleixo de gangster e as “pegadas” na virilha, e você terá “O Guia do Rap para a Evolução” (“The Rap Guide to Evolution”), escrito e interpretado pelo rapper Baba Brinkman. O show, que acaba de estrear para uma temporada durante o verão no SoHo Playhouse, em Manhattan (Nova York), é uma palestra de uma hora e meia sobre Darwin e a seleção natural, disfarçada em discurso retórico sobre a história do rap, gangues e assassinato em Chicago, relação entre os sexos e seus próprios primos criacionistas teimosos.

A evolução tem tido muitos e proeminentes defensores e proselitistas no passar dos anos, incluindo Thomas Huxley quando Darwin ainda era vivo e Richard Dawkins nos tempos de agora, mas poucos tão engajados e rítmicos como Brinkman, que tocou seis vezes no prestigiado Edinburgh Fringe Festival, tendo recebido um prêmio por ser o melhor escritor de teatro novato em 2009.

A bióloga e autora Olivia Judson, ao escrever no NYTimes.com no ano passado, chamou o show de rap da evolução de “uma das mais surpreendentes e brilhantes aulas sobre evolução que eu jamais havia visto”. Em uma noite úmida da semana passada, a multidão saiu do teatro em direção às ruas do SoHo, depois do show, conversando sobre os aspectos técnicos e sociais da seleção natural.

A cena reforçou a minha impressão de que o “rap nerd”, como Brinkman chama, está se tornando uma das mais populares e vitais maneiras de comunicação da ciência. Poucas explicações do Grande Colisor de Hádrons conseguem superar o “Large Hadron Rap” de Alpinekat em batida e ritmo, e a voz robotizada e esperteza maliciosa de Stephen Hawking geraram uma tropa de imitadores, como MC Hawking, que fazem rap sobre buracos negros e entropia.

Mas quando o assunto é fundir o pessoal ao cósmico, é difícil superar a combinação entre evolução e hip-hop. Ilustrando o princípio darwiniano da biomimética, Brinkman compara a figura ameaçadora dos “gangsta rappers” com as cores brilhantes adotadas por uma cobra não venenosa, para parecerem venenosas a fim de afastar predadores em um ambiente hostil.

Brinkman não é nenhum “gangsta”. Pelos padrões da cultura comum, Brinkman não se encaixa de jeito nenhum no estereótipo do rapper. Canadense loiro de ascendência holandesa, ele nasceu em 1978 em uma cabana de troncos construída por seus pais (e amigos) hippies, na região de West Kootenays –território montanhoso na Colúmbia Britânica. Seu pai tem uma companhia de reflorestamento para áreas que tiveram árvores derrubadas – mais de um bilhão de árvores plantadas até agora. Sua mãe é membro da Assembleia Legislativa do Canadá.

Enquanto degustava um prato de ostras e atum na semana passada, Brinkman contou que quis ser um rapper desde que tinha 10 anos e que tem se apresentado por aí desde que tinha 18, inventando músicas e cantando no ritmo do plantio de árvores da companhia de seu pai.

Ele também sempre foi um nerd da literatura quando criança, e acabou conseguindo o título de mestre em literatura medieval na Universidade de Victoria. No meio do caminho, começou a escrever uma versão rap para ‘Os Contos da Cantuária’ (‘Canterbury Tales’) de Geoffrey Chaucer. “Chaucer precisava ser mais bem apresentado”, explica.

Brinkman levou ‘The Rap Canterbury Tales’ para o festival de Edimburgo, onde ele foi esgotado em 2004, o que levou a “um monte de shows” e a um livro, segundo conta.

No meio do caminho, seu trabalho chamou a atenção de Mark Pallen, biólogo na Universidade de Birmingham e autor de “The Rough Guide to Evolution”, que havia acabado de dar um tratamento reggae em Darwin, para um colega jamaicano, e também estava usando métodos evolutivos para estudar manuscritos de Chaucer. Ele convidou Brinkman para ir a Birmingham e, como ele mesmo coloca, “nós rapidamente deslizamos para um “groove evolutivo”.

Brinkman comprou e escutou uma versão em áudio de “A Origem das Espécies”.Pallen perguntou a Brinkman se ele conseguiria fazer por Darwin a mesma coisa que havia feito com Chaucer. “Provavelmente”, respondeu Brinkman. A única dificuldade é teria de ser feito em cinco meses, a tempo para o ducentésimo aniversário do nascimento de Darwin, em 12 de fevereiro de 2009, que seria ocasião de uma celebração mundial pela ciência da evolução.

Ele então transferiu essa versão para um iPod Shuffle e a escutou novamente, com os capítulos sendo tocados em ordem randômica. “Novas conexões emergiram”, diz ele. O resultado foi o que Pallen chamou de “o primeiro rap por revisão paritária”.

Brinkman apresentou o show em diversos locais do Reino Unido pela comemoração do aniversário de Darwin em fevereiro; depois em Edimburgo; e então fez uma semana em Nova York, com ingressos esgotados. Ele conta que em um certo momento chegou a fazer 53 shows em três semanas e meia.

Apropriadamente, o próprio show evolui. O que antes era uma linha sobre não levar para a cama pessoas mesquinhas, por exemplo, foi expandida para uma seção inteira. Mas a estrada não tem sido lisa o tempo inteiro. Brinkman disse que, no Texas, as pessoas deixavam o show em uma parte do rap que canta uma “pergunta-resposta” de “Criacionismo é” –“erro cego!”.

Quando tinha 19 anos, Brinkman diz que queria ser Eminem e vender um milhão de discos por ano, mas agora acredita existirem muitas oportunidades no “rap nerd”. Ele diz que estava pensando em fazer seu próximo rap sobre mudanças climáticas. Faz uma pausa sobre seu prato de atum com crosta apimentado e diz: “Estou muito a fim de fazer isso, aliás”.

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