O cérebro humano, célula por célula
HERTON ESCOBAR , ENVIADO ESPECIAL / RIO – O Estado de S.Paulo
Cientistas no Rio usam cérebros de São Paulo para estudar o envelhecimento
O cérebro humano tem a consistência de um pudim.
Penso nisso enquanto assisto à pesquisadora Ana Virgínia Oliveira Pinto dissecar um no Laboratório de Neuroplasticidade do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ICB-UFRJ). Com uma pinça, ela descola a pia-máter, uma membrana vascularizada que reveste o cérebro como uma embalagem. Depois, armada de faca e bisturi, desmonta o órgão em várias estruturas anatômicas, como cerebelo, hipocampo, lobo frontal e outras regiões do córtex.
As lâminas deslizam com facilidade pelo tecido mole. Difícil e incrível é imaginar que aquela massa enrugada e de aparência gelatinosa já foi a “cabeça pensante” de alguém, com uma vida inteira de informações armazenadas na forma de sinapses e neurotransmissores.
Cada pedaço dissecado é pesado e congelado separadamente para, mais tarde, ser desintegrado e transformado numa “sopa” de organelas celulares. Coisa que Virgínia já fez com 24 cérebros desde o início do ano passado e pretende fazer com mais algumas dezenas até o final do seu doutorado, em 2013.
O objetivo: entender como a arquitetura celular do cérebro se desenvolve e se modifica ao longo da vida, do nascimento até a morte. “Em que momento o cérebro se torna maduro, totalmente desenvolvido? Não sabemos. E a partir de que momento ele começa a se degenerar, perder neurônios? Também não sabemos”, diz Virgínia. “Queremos conhecer a dinâmica desse processo, observar toda essa evolução cerebral.”
O cérebro fatiado à nossa frente pertencia a um homem de 49 anos, morto por edema pulmonar em São Paulo, no fim de março. Um dos quatro casos que Virgínia acabara de trazer do Banco de Encéfalos Humanos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (mais informações na página ao lado). Os outros três vieram de um homem de 86 anos, uma mulher de 57 e outra, de 55. Quanto mais variadas as idades, para Virgínia, melhor. A ideia é justamente comparar a composição celular dos cérebros de homens e mulheres de várias idades, para ver se há diferenças significativas entre eles.
“O que queremos, essencialmente, é estabelecer a linha de base do desenvolvimento e do envelhecimento cerebral”, explica o neurocientista Roberto Lent, orientador de Virgínia, chefe do laboratório e diretor do ICB. “Para entender as alterações, precisamos antes entender a linha de base.”
Em outras palavras: para diagnosticar o que é anormal, é preciso, antes, estabelecer o que é normal. Por isso, a pesquisa é feita apenas com cérebros de pessoas consideradas saudáveis do ponto de vista neurológico, sem sintomas de doenças neurodegenerativas, como Parkinson ou Alzheimer, nem de outras condições capazes de causar alterações na estrutura cerebral. “Tudo que possa alterar o número de neurônios a gente exclui. Selecionamos a morte mais natural possível”, diz a pesquisadora Ana Tereza Di Lorenzo Alho, do Banco de Encéfalos Humanos da USP, responsável pela triagem e processamento dos casos que são enviados para a UFRJ.
Sempre que aparece um cérebro que se encaixa no protocolo da pesquisa carioca, Tereza avisa Virgínia, que vai buscar o órgão em São Paulo. Ela leva um hemisfério inteiro de cada cérebro, preservado em formol, mais algumas amostras “frescas” (sem formol) de quatro regiões do outro hemisfério – que permanece no banco em São Paulo para ser usado em outras pesquisas. As amostras frescas são utilizadas para análises de alteração cromossômica, enquanto os tecidos fixados em formol são usados para contagem de células – o parâmetro básico de comparação usado em várias pesquisas do laboratório.
Receita nacional. A técnica de contagem celular, chamada fracionamento isotrópico, foi inventada na própria UFRJ sete anos atrás por Lent e Suzana Herculano-Houzel, sua parceira de pesquisa e vizinha de laboratório no ICB. O processo consiste em desintegrar o tecido cerebral por uma combinação de ações químicas e mecânicas, que rompem a membrana das células, mas não a membrana dos seus núcleos, produzindo ao final uma “sopa” homogênea de organelas celulares – tendo núcleos intactos como ingrediente principal.
Um processo relativamente simples, mas trabalhoso, que envolve macerar pequenas amostras de tecido (de no máximo 6 gramas cada uma) em pilões de vidro chamados potters. Para fracionar um lobo posterior do cerebelo, por exemplo, uma estrutura de apenas 60 gramas, leva-se cerca de 10 horas. Um meio cérebro inteiro, de 600 gramas, consome praticamente um mês e meio de trabalho. E isso graças à invenção de uma máquina, em 2010, que reduziu o tempo de fracionamento pela metade. Antes, os alunos tinham de macerar as amostras manualmente durante dias, e não eram raros os casos de tendinite no laboratório por causa disso.
Segue-se, então, uma rotina de procedimentos meticulosos e tediosos, medidos em segundos, milímetros e microlitros, mas que podem render grandes e fascinantes descobertas no final.
Pronta a sopa de organelas, acrescenta-se a ela uma substância chamada DAPI, uma espécie de corante molecular fluorescente que se liga exclusivamente aos núcleos celulares, fazendo eles brilharem como bolinhas azuis no microscópio. Dessa mistura, tira-se uma amostra de 0,04 mililitro, subdividida em quatro subamostras ainda menores, de 0,01 mililitro, que são colocadas sobre uma plataforma chamada câmara de Neubauer – uma placa de vidro com um grid de quadrados milimétricos, que servem como referência para a contagem dos núcleos. “Como cada célula tem um único núcleo, contar núcleos equivale a contar células”, explica Lent.
Sabendo o volume das amostras, a área dos quadrados, o número de núcleos que aparecem dentro deles, e aplicando algumas fórmulas matemáticas, os cientistas conseguem determinar quantas células havia no pedaço original de cérebro que foi fracionado.
E tem mais. Para saber quantas dessas células são neurônios – versus outros tipos de células cerebrais – é preciso acrescentar à amostra um segundo marcador molecular, que reage apenas com os núcleos de neurônios, fazendo com que eles fluoresçam vermelho. A regra básica é contar 500 núcleos azuis e ver quantos deles brilham também em vermelho, para obter uma proporção estatística. Detalhe: as cores não podem ser visualizadas simultaneamente; é preciso trocar manualmente os filtros de azul e vermelho para cada campo de visualização no microscópio.
Os cientistas já sabem – graças a essa técnica – que a proporção entre neurônios e não neurônios varia bastante entre as regiões cerebrais. No córtex, por exemplo, só 20% das células são neurônios, em média, enquanto no cerebelo esse índice é de 80%. Em breve, Virgínia poderá dizer também se há variações relacionadas ao sexo e à idade.
Fracionar e contar as células de cérebros inteiros levaria muito tempo, por isso ela optou por focar a pesquisa em três regiões: cerebelo, bulbo olfativo e formação hipocampal. O hipocampo, associado à memória, e os bulbos, associados ao olfato, são as duas regiões onde há neurogênese (formação de novos neurônios) comprovada na vida adulta. Já o cerebelo, associado a funções cognitivas e motoras, concentra 80% dos neurônios do cérebro em apenas 10% da massa encefálica total – um alvo irresistível de pesquisa.
No processo de dissecação, todo cuidado é pouco para não perder nenhum fragmento do tecido cerebral, por mais microscópico que seja. Cada vez que separa um pedaço do órgão num recipiente, Virgínia enxágua as luvas e as lâminas usadas na operação com uma solução, para que qualquer célula que tenha ficado grudada nelas escorra para dentro do mesmo recipiente. “Para ter uma contagem absoluta não podemos desperdiçar nenhuma célula”, justifica ela, recuperando da mesa um fragmento do tamanho do um grão de arroz. “Você não imagina a quantidade de células que tem num pedacinho desses. Especialmente se for do cerebelo.”
Órgão doce. Outra preocupação é com as formigas que costumam invadir a bancada, talvez atraídas pelo conteúdo adocicado dos cérebros. “É só a gente começar a dissecar que elas aparecem”, conta Virgínia. O cérebro humano tem um metabolismo altíssimo – consome 20% da energia total do corpo – e por isso precisa de muita glicose (açúcar) para funcionar. Poderia se dizer, talvez, que é nosso órgão mais doce.
A meta de Virgínia é fracionar pelo menos cinco cérebros de cada faixa etária, separadas por década. Ela já tem 39 cérebros coletados, mas apenas quatro abaixo dos 50 anos e um, acima dos 90. Os mais jovens são os mais difíceis de conseguir, pois o Serviço de Verificação de Óbitos (que fornece os órgãos para o Banco) só lida com mortes de causas naturais, que são mais comuns em idades mais avançadas.
Outras linhas de pesquisa no laboratório, baseadas na contagem de células, incluem a comparação entre cérebros de pessoas com Alzheimer – em diferentes estágios da doença – e entre bulbos olfativos de homens e mulheres de diferentes idades. Algumas pesquisas estão bem avançadas, com resultados preliminares instigantes, mas Lent prefere não divulgar nada até que os dados estejam consolidados e publicados – especialmente com relação às diferenças entre homens e mulheres.
“Melhor não criar polêmica antes da hora”, diz o cientista, cauteloso. “Está pintando uma diferença, mas não podemos afirmar isso ainda.” A expectativa é publicar vários resultados ainda neste ano. Até lá, o consumo de açúcar na cabeça dos cientistas promete ser grande.
Eclipse com ‘anel de fogo’ escureceu o Hemisfério Norte
Estadão – Da Reuters
Esse foi o 1º eclipse anular que pode ser visto nos EUA desde 1994, e o próximo será em 2023
Neste último domingo, 20, o Sol e a Lua se alinharam sobre a Terra num raro evento astronômico, o eclipse anular, que obscureceu partes da Ásia e da América do Norte, criando por alguns instantes um anel de fogo no céu.
Evento astronômico obscureceu partes da Ásia e da América do Norte
Maior telescópio solar da Europa é inaugurado na Espanha
Estadão – Da Efe
Instrumento será usado para auxiliar a observação e a compreensão dos processos solares produzidos na maioria das estrelas do universo

O maior telescópio solar da Europa, chamado Gregor, foi inaugurado nesta segunda-feira, 21, no Observatório do Teide (Tenerife) para auxiliar a observação e compreensão dos processos solares produzidos na maioria das estrelas do universo.
Durante a inauguração de Gregor, promovido por um consórcio alemão, o diretor do Instituto de Astrofísica das Canárias (IAC), Francisco Sánchez, explicou que esta infraestrutura é uma prova de cooperação que ajuda o desenvolvimento conjunto.
Os custos deste telescópio e de seus primeiros instrumentos são de aproximadamente 12,85 milhões de euros, custeados em grande parte pelo consórcio alemão, que inclui o Instituto de Astrofísica de Potsdam-Leibinz e o Instituto de Pesquisa Solar Max Planck em Katlenburg-Lindau, como parceiros.
O Instituto de Astrofísica das Canárias (IAC), assim como o Instituto de Astrofísica de Göttingen e o Instituto Astronômico da Academia de Ciência da República Tcheca, também participam deste projeto.
O telescópio solar Gregor ajudará a compreender melhor os processos físicos que são produzidos na maioria das estrelas do universo, além de resolver questões sobre como a atividade solar afeta e danifica os satélites e as redes de energia da Terra.
O novo satélite também permitirá uma observação da atmosfera solar com uma resolução nunca vista até agora. Isso porque, o Gregor possui uma abertura de 1,5 metros, um número superior ao do resto dos telescópios solares instalados nos observatórios do IAC.
A resolução espacial, espectral e temporal permite que os pesquisadores possam seguir os processos físicos na superfície do Sol em escalas menores – como 70 quilômetros, por exemplo.
Ao contrário do que ocorre com o resto de telescópios solares, o desenho do Gregor é totalmente aberto, já que sua cúpula é substituída por um teto retrátil. Esse mecanismo evita o superaquecimento da estrutura e dos espelhos.
Uso de agrotóxicos pode alterar comportamento de gerações futuras
Estadão – Da Efe
Segundo novo estudo, jovens poderão apresentar estresse e desordens de conduta
O contato com elementos ambientais tóxicos pode influir na resposta de futuras gerações ao estresse e causar desordens de conduta, segundo um estudo realizado nos Estados Unidos com ratos.
O estudo, realizado por pesquisadores das universidades de Washington e do Texas, comprovou que apenas uma exposição de fêmeas que esperavam filhotes a um fungicida utilizado em frutas e verduras, a vinclozolina, tinha consequências sobre a conduta da terceira geração de seus descendentes, apesar deles terem sido criados livres do agrotóxico.
Segundo os resultados do estudo, publicado nesta segunda-feira, 21, na revistaProceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), estes roedores se mostraram mais sensíveis às situações de estresse e experimentaram uma maior ansiedade do que os descendentes de ratos que não tiveram contato com o fungicida.
“Estamos atualmente na terceira geração humana desde o começo da revolução química, desde que os humanos ficaram expostos a estes tipos de toxinas”, afirmou um dos autores da pesquisa, David Crews.
Até o momento, não se sabia que a resposta ao estresse pudesse depender dos fatores ambientais dos antepassados. Mas os mesmos pesquisadores já tinham demonstrado anteriormente que a vinclozolina podia afetar os genes.
Segundo o estudo, a socialização do indivíduo e os níveis de ansiedade com os quais ele reage perante ao estresse são condicionados não só pelos eventos de sua vida mas também pela herança ancestral epigenética (mudanças genéticas causadas por fatores externos ao organismo).
“Não há dúvida de que assistimos a um aumento real de problemas mentais como o autismo e o transtorno bipolar”, declarou Crews, que opinou que isto não se deve apenas a vivermos num mundo mais frenético, mas também pelo efeito dos fatores ambientais.
Em seu estudo, os investigadores também observaram que os ratos cujos antepassados estiveram expostos à vinclozolina eram maiores e tinham níveis de testosterona mais altos.
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Arquivo/AE. Segundo estudo, mudanças genéticas também são causadas por fatores externos, como os agrotóxicos
Fóssil de dinossauro é vendido por US$ 1 milhão nos EUA
Folha - DA ASSOCIATED PRESS
O fóssil de um dinossauro que viveu há 80 milhões de anos foi vendido nos Estados Unidos por 1 milhão de dólares.
Trata-se do esqueleto de umTyrannosaurus bataar medindo 2,4 metros de altura e 7,3 metros de comprimento. Esse dinossauro é um “primo” do famoso e temido Tyrannosaurus Rex.
A venda está provocando uma disputa entre o governo da Mongólia (Ásia) e a casa de leilão norte-americana Heritage. O esqueleto do dinossauro foi descoberto no deserto de Gobi, que se estende pelo norte da China e sul da Mongólia.
O presidente da Mongólia reclama que o fóssil pertence a seu país. Ali, a exportação de ossos de dinossauros é proibida.
A Heritage diz que foi assegurada de que a amostra foi obtida legalmente. Segundo a casa de leilão, a Mongólia não comprovou que o fóssil teve origem em seu território.
A venda só será confirmada depois que a disputa for resolvida.
A peça está 75% completa, e a cabeça está 80%, afirma David Herskowtiz, diretor do departamento de história natural da Heritage. Segundo ele, esqueletos expostos em museus raramente passam de 50% de autenticidade.

Fóssil do Tyrannosaurus bataar vendido em Nova York. (Marta Quintín/e)
Censo vai mapear todas as espécies da Amazônia
Folha - REINALDO JOSÉ LOPES - EDITOR DE “CIÊNCIA+SAÚDE”
Pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, lançam nesta sexta-feira (18) um plano ambicioso: o de disponibilizar na internet a lista completa de todas as milhares de espécies de animais e plantas da Amazônia.
O Censo da Biodiversidade (que já pode ser acessado on-line ) por enquanto agrega apenas uma lista de mais de 3.000 espécies de animais, de mamíferos a aranhas, todos eles nativos do Pará.

O lagarto “Gonatodes nascimentoi“, uma das 130 espécies descobertas pelo Museu Paraense Emílio Goeldi. (Pedro Luiz Viera Peloso)
“O plano é que, até o fim do ano, a gente consiga atingir toda a Amazônia brasileira”, disse à Folha o biólogo Ulisses Galatti, um dos coordenadores da iniciativa.
O projeto se une a outras ferramentas virtuais Brasil e mundo afora cujo objetivo é concluir a tarefa aparentemente simples, mas na prática extremamente cabeluda, de contar quantas espécies existem no planeta.
Sem esse dado básico, fica muito difícil proteger as áreas mais ameaçadas pela pressão humana ou estudar as raízes evolutivas de plantas ou animais. No entanto, problemas como a escassez de profissionais especializados em sistemática (o ramo da biologia que classifica os seres vivos) atrapalham um bocado.
Mesmo em grupos já estudados de cabo a rabo, como mamíferos e aves, a expectativa é que 10% das espécies amazônicas ainda sejam desconhecidas, diz Galatti.
“Quando se fala de répteis e anfíbios, então, ainda há muita coisa desconhecida”, afirma o biólogo do Goeldi.
| Editoria de Arte/Folhapress |

REFERÊNCIA
Por enquanto, o internauta tem acesso apenas aos nomes científicos e ao status de conservação (se a espécie está criticamente ameaçada de extinção ou é apenas vulnerável, por exemplo) dos bichos paraenses.
O plano, no entanto, é indicar, para cada espécie, em que museu estão seus exemplares de referência, ou seja, os indivíduos (empalhados ou preservados em álcool, digamos) que serviram de base para que o descobridor da espécie a descrevesse.
Essa informação é crucial para que outro cientista, diante de uma criatura parecida, consiga dizer se ela pertence a uma espécie ainda desconhecida ou à mesma.
Os pesquisadores também devem incluir imagens e até sons de cada espécie. Em última instância, a iniciativa do censo pretende incluir espécies amazônicas dos países vizinhos e também de outros ecossistemas do país.
Junto com o site, o Goeldi também está lançando a publicação “Espécies do Milênio”, que reúne as 130 novas criaturas descobertas pelos pesquisadores do museu entre o ano 2000 e 2011.
O museu também promove hoje um debate sobre a Rio+20, conferência ambiental da ONU que ocorre no Rio de Janeiro em junho, e a biodiversidade da Amazônia.
“É louvável discutir a economia verde na Rio+20, mas para isso é preciso pensar num desenvolvimento amazônico baseado em ciência e no potencial econômico da biodiversidade”, diz Galatti.
Com foco em áreas estratégicas, INCT de Astrofísica consegue salto de produtividade

Balanço dos três anos de atividade do instituto registra aumento contínuo de publicações em revistas de alto impacto. Em 2011, pesquisadores ultrapassaram marca de 200 artigos (foto:SOAR)
Por Fábio de Castro
Agência FAPESP – Com investimentos focados em metas estratégicas, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Astrofísica (INCT-A) conseguiu produzir um salto na produtividade de seus pesquisadores, com um grande avanço em publicações nas revistas científicas de mais alto impacto. Os resultados acabam de ser divulgados em um relatório de avaliação das atividades do INCT-A em seus três anos de existência.
De acordo com o balanço, os pesquisadores ligados ao instituto publicaram 202 artigos científicos em revistas indexadas em 2011. Desse total, 85% dos artigos foram publicados em revistas definidas como Qualis A pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes). O relatório informa também que no INCT-A, desde o início do programa, a produtividade por pesquisador tem crescido a uma taxa média de 8% ao ano.
Financiado pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o INCT-A conta com 173 cientistas doutores ativos em pesquisa, distribuídos em uma rede virtual de 31 instituições espalhadas pelo país.
As áreas de pesquisa com maior número de publicações são as de espectroscopia óptica e infravermelha de estrelas, sistemas estelares e galáxias, além da área de cosmologia teórica, com modelos envolvendo energia escura, de acordo com coordenador do INCT-A, João Steiner, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP).
Segundo Steiner, uma das principais explicações para os bons resultados revelados pelo relatório é o forte sentido estratégico do instituto, que foca seus investimentos em objetivos de longo prazo.
“O principal diferencial do INCT-A é que nós definimos cinco objetivos estratégicos e restringimos a eles todos os investimentos. Optamos por investir no futuro da ciência, em vez de diluir os recursos em necessidades cotidianas dos pesquisadores, que podem ser supridas pelas agências de fomento”, disse Steiner à Agência FAPESP.
Os cinco objetivos estratégicos são: a maximização do retorno dos investimentos feitos nos telescópios Gemini e SOAR; preparar a astronomia brasileira para o advento do Large Synoptic Survey Telescope (LSST), que está sendo construído; a implantação de Observatórios Virtuais no Brasil; a estruturação de projetos de infraestrutura; e a implementação de um curso a distância para professores de ciências.
“A criação do INCT-A foi um dos fatores que contribuíram para o aumento da produtividade de seus pesquisadores. Nosso objetivo é que, em função do enfoque estratégico que adotamos, essa produtividade tenha sustentabilidade em longo prazo”, disse Steiner.
Para cumprir o objetivo de maximizar o retorno dos investimentos feitos nos telescópios Gemini e SOAR, uma das principais iniciativas tem sido o investimento na formação de grupos emergentes de pesquisa.
“O Brasil fez investimentos significativos nesses telescópios internacionais e por isso queremos aumentar o retorno científico – produzindo mais e melhores artigos – e aproveitar esses instrumentos para a formação de recursos humanos, com apoio a grupos emergentes. É uma forma de garantir, em longo prazo, o acesso desses grupos brasileiros aos telescópios”, afirmou Steiner.
Segundo ele, o projeto norte-americano LSST deverá ter um impacto profundo na astronomia brasileira e por isso a preparação do país para esse empreendimento foi considerado um objetivo estratégico do INCT-A.
“O LSST é um grande telescópio que fará o levantamento de todo o céu do hemisfério Sul a cada cinco dias, em cinco bandas diferentes do espectro. O instrumento será capaz de mostrar a variabilidade temporal na faixa óptica. O Brasil não está envolvido no projeto, mas a força da astronomia brasileira está justamente na faixa do óptico e estamos no hemisfério Sul. O projeto terá um impacto muito profundo na nossa astronomia, que será negativo, caso não estejamos preparados”, disse Steiner.
A importância da implantação de um observatório virtual, segundo Steiner, é dar vazão a incrível quantidade de dados acumulada pelos grandes telescópios espalhados pelo mundo.
“Temos uma grande reserva de dados disponíveis, muitos deles com uma riqueza incrível de informação que nunca foi analisada. A comunidade científica terá um benefício enorme se puder aproveitar esse banco de dados com o acesso virtual”, disse.
Telescópios e computação
Na estruturação de projetos de infraestrutura, o INCT-A tem apoiado a elaboração do Projeto Latin-American Millimetric Array (LLAMA).
“Em parceria com a Argentina, pretendemos instalar uma antena nos Andes argentinos para fazer interferometria com o Atacama Large Millimeter Array (Alma), que está sendo construído no Chile”, disse Steiner.
O curso de astronomia de ensino a distância estruturado pelo INCT-A já formou sua primeira turma, com 100 professores de ciência matriculados. A segunda turma, com 200 matrículas, já está em curso. “Os professores de ciência têm enorme interesse pela astronomia. A ideia é expandir o curso em função da experiência adquirida para outros estados”, declarou.
Segundo Steiner, a maior parte dos investimentos do instituto tem sido direcionada para a instrumentação do telescópio SOAR e para o apoio a grupos emergentes.
No SOAR já foram construídos três espectrógrafos de alto desempenho, cada um deles com características muito diferentes, mas complementares. “São instrumentos de classe mundial muito sofisticados, que irão ampliar muito os limites de pesquisa da nossa comunidade científica”, disse.
Outro foco importante de investimento tem sido a computação de alto desempenho, fundamental para o futuro tratamento de enormes quantidades de dados.
“Esse investimento está sendo feito no IAG-USP, mas os equipamentos serão usados por toda a comunidade externa”, disse Steiner. Os investimentos tiveram apoio do Programa Equipamentos Multiusuários da FAPESP.
Cientistas decifram genoma do vetor da Doença de Chagas
Estadão – Da Efe
Decodificação permite planejar novas técnicas de controle do barbeiro e estudar mecanismo para inibir ação do inseto
Pesquisadores de Brasil, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Canadá e Reino Unido decifraram o genoma do inseto transmissor da Doença de Chagas, que afeta milhões de pessoas na América do Sul.
A decodificação do genoma do barbeiro, vetor da doença, permite “idealizar novas técnicas de controle do inseto e estudar a interação com o parasita causador da doença”, o Trypanosoma cruzi, afirmou à Agência Efe o pesquisador argentino Rolando Rivera Pomar, do Centro Regional de Estudos Genômicos da Universidade de La Plata.
“A informação sobre a decodificação pode ser acessada em um site (www.vectorbase.org) à disposição da comunidade científica, para que possam interpretar esses dados, portanto ainda resta muito caminho a ser trilhado”, detalhou o cientista.
Os pesquisadores acreditam que se conseguirem estabelecer os motivos pelos quais o barbeiro transmite o parasita da doença, poderão estudar os mecanismos para inibir essa ação do inseto.
Rivera Pomar assinalou que a descoberta, alcançada após quase dez anos de pesquisas, permite “completar o ciclo” sobre o mal dado que os genomas do humano e do parasita transmissor já tinham sido decifrados.
A decodificação do genoma do barbeiro, o Rhodnius prolixus, abre a possibilidade de “encarar uma luta mais eficaz ao conhecer mais sobre o Mal de Chagas”, acrescentou.
Um grupo de 30 cientistas participou da pesquisa, que contou com um financiamento de mais de US$ 4 milhões fornecidos pelo Instituto Nacional de Saúde dos EUA.
Em março, a Argentina anunciou que começou a produzir um remédio para tratar a Doença de Chagas.

Reprodução
Barbeiro, o inseto transmissor da Doença de Chagas
Cientista testa ímãs e terras raras como repelentes de tubarões
Estadão – Da BBC BRASIL
Proposta do químico americano é tanto proteger os animais da caça predatória quanto evitar ataques de tubarões contra mergulhadores
Um químico americano alega ter descoberto substâncias que podem servir de repelente para tubarões, numa iniciativa que visa proteger tanto os animais quanto os humanos.
Num píer da ilha de Bimini do Norte, nas Bahamas, Eric Stroud observa a água cor de turquesa.
“A maré está voltando. Então qualquer cheiro que chegue à água irá até o canal, onde os grandes tubarões estão neste momento”, diz ele.
Stroud está montando um experimento. Ele desembrulha 9 kg de sardinhas congeladas, coloca-as em uma sacola presa ao píer e joga a sacola na água. A intenção é atrair um tubarão dos grandes.
“É um animal razoavelmente perigoso e pode ser agressivo se provocado ou encurralado.”
Se o tubarão aparecer, Stroud jogará uma isca na água. Mas não é uma isca comum – seu objetivo não é pescar nada, e sim repelir os tubarões.
Ataques de tubarões
O químico antes trabalhava em uma indústria farmacêutica. Até que, em 2001, foi passar as férias com sua mulher em Bermuda.
“O tempo estava ruim e ficamos presos em um chalé, escutando notícias sobre ataques de tubarões”, relembra. “Parecia que todos os que tinham se aventurado nas águas da Flórida (EUA) estavam sendo mordidos por tubarões naquele verão.”
Foi quando sua mulher sugeriu que ele usasse seus talentos para desenvolver um repelente.
De volta a sua casa, em Nova Jersey, Stroud montou pequenos tanques em seu porão e encheu-os de tubarões pequenos. Observava seu comportamento dia após dia, até que em 2004, acidentalmente, derrubou um pedaço de ímã na água. E percebeu que alguns tubarões se afastaram do objeto.
“Colocamos mais ímãs na água e vimos que os tubarões ficaram estressados, tentando se afastar”, afirma.
O cientista então resolveu demonstrar o efeito repelente dos ímãs na Estação Biológica Bimini, nas Bahamas. Um dos assistentes de Stroud segura um pequeno tubarão e coloca-o de ponta cabeça, em um estado de imobilidade. Em seguida, aproxima um ímã do tubarão. O animal desperta rapidamente e foge.
Sensores
A explicação é que os tubarões têm sensores, chamados ampolas de Lorenzini, que se parecem a pequenas sardas. Biólogos creem que os animais usam os sensores para detectar o batimento cardíaco de suas presas e para navegar usando o campo magnético da Terra.
Stroud suspeita que mover ímãs perto dos animais sobrecarrega esses sensores.
“Provavelmente é como mirar a luz de uma lanterna nos olhos de alguém”, explica. “É uma cegueira temporária que te paralisa e não é agradável.”
Outros animais marinhos aparentemente não são afetados, por não terem as ampolas de Lorenzini.
A partir desse conhecimento ele fundou a SharkDefense, empresa criada para comercializar repelentes de tubarões. E descobriu que alguns outros metais têm o mesmo efeito que o ímã.
Terras raras
O efeito foi particularmente eficiente com os minerais de terras raras como samário, neodímio e praseodímio.
O projeto inicial de Stroud era desenvolver repelentes que protegessem as pessoas nos oceanos – ele e sua equipe estão desenvolvendo uma cerca magnética submarina que pode ajudar a proteger mergulhadores.
Mas seu principal foco, agora, é proteger os próprios tubarões. Muitas espécies são caçadas de maneira predatória e correm risco de extinção. Um motivo é que muitas vezes os pescadores estão atrás de outros peixes e acabam capturando tubarões por engano.
Stroud quer um repelente que permita essa pesca, poupando os tubarões.
“Percebemos que poderíamos magnetizar o anzol e cobri-lo com um metal terra rara”, explica.
Diversos países estão testando a ideia. Até agora, resultados preliminares indicam que é possível reduzir de 60% a 60% a pesca de tubarões.
Enquanto isso, o cientista segue tentando aperfeiçoar seu projeto, tentando novas combinações de metais e ímãs e observando seus efeitos nos predadores marinhos.
Colaborou Rob Hugh-Jones
Telescópio Kepler dá pistas sobre impacto de explosão solar sobre a Terra
Estadão – Da BBC BRASIL
Equipamento mostra as chances de emissão eletromagnética varrer camada de ozônio
O telescópio espacial Kepler vem fornecendo novas descobertas sobre as colossais explosões que podem afligir algumas estrelas.
Estes lançamentos enormes de energia magnética – conhecidos como “super flares” (super chamas, na tradução literal) – podem danificar a atmosfera de um planeta em órbita nas proximidades, colocando em risco as formas de vida que eventualmente residam ali.
Felizmente o Kepler mostra que as “super flares” são muito menos frequentes em estrelas de baixa rotação, como nosso Sol. O telescópio da agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa, observa 100 mil estrelas em um pedaço de céu entre 600 e 3 mil anos-luz da Terra.
As novas observações foram relatadas na revista Nature.
A maior explosão solar registrada foi provavelmente o evento conhecido como “Carrington”, em 1º de Setembro de 1859.
Descrito pelo astrônomo inglês Richard Carrington, essa explosão enviou uma onda de radiação eletromagnética e partículas carregadas em direção à Terra.
Os campos magnéticos embutidos na bolha de matéria atingiram o próprio campo magnético da Terra, produzindo luzes espetaculares, semelhantes à aurora boreal. Os campos elétricos gerados interromperam as comunicações por telégrafo na época.
Surpreendentemente, a explosão solar Carrington é insignificante se comparada a alguns dos eventos observados pelo Kepler. Os super flares podem ser 10 mil vezes mais fortes.
Interações magnéticas
O Kepler busca rastrear mudanças na luz gerada pelas explosões que possam indicar se planetas em órbita mudaram de posição em relação a estas estrelas. Mas, ao fazer essas observações, o Kepler também está reunindo informações sobre o brilho repentino associado às super flares.
Hiroyuki Maehara, da Universidade de Kyoto, no Japão, e seus colegas revisaram estes dados para compilar estatísticas sobre a frequência e o tamanho dos super flares.
O Kepler observou um total de 365 super flares durante 120 dias.
Os números confirmam que muito poucas (0,2%) estrelas semelhantes ao Sol apresentam explosões desta magnitude.
Isso pode ser explicado por padrões que indicam que as super flares podem ser causadas por interações magnéticas entre planetas gigantes e as estrelas – algo diferente do que vemos em nosso sistema solar, no qual Júpiter e Saturno orbitam longe do Sol.
Uma outra observação interessante do Kepler é de que as estrelas que têm super flares exibem áreas de baixa temperatura extremamente grandes, em contraposição às altas temperaturas em seu entorno.
Carrington identificou um conjunto de pontos de baixa temperatura associados à famosa explosão solar de 1859. No entanto, estes pontos seriam ínfimos se comparados com os associados às super flares vistas por Kepler.
Os cientistas há muito especulam sobre o impacto que uma super flare em nosso sol pode ter na Terra. A expectativa é de que o fenômeno iria varrer a camada de ozônio, levando ao aumento da radiação ao nível do solo. Extinções generalizadas poderiam acontecer.
Há um outro lado disso, no entanto. Em alguns sistemas planetários distantes, super flares podem gerar condições para existência de vida, fornecendo energia suficiente às atmosferas desses mundos para iniciar a química necessária para o desenvolvimento biológico.
BBC - Lançamentos de energia magnética podem danificar atmosfera



